sábado, 13 de fevereiro de 2016

Sabado de manhã



           - Droga!
Não, na verdade essa não foi a primeira coisas que ele disse naquele sábado. Alguns minutos antes ele grunhiu algo indecifrável ao sentir a luz da manha esquentando seu rosto. Coçou as costas, passou a mão na cara, sentiu a boca seca.
Noites de sexta-feira como a anterior sempre faziam a boca amanhecer seca.
Olhou pro lado, ainda deitado, por onde a luz vinha perturbá-lo e pensou "como será que foi a noite dela?"
Só então soltou um "droga" sussurrado. Por que sabia que quando se pensa em alguem logo ao acordar, isso é um sinal. Se é um bom ou um mal sinal, já é algo muito complexo para julgar nessa hora do fim de semana.
Não sobrava nada pra fazer na cama, então levantou em busca de alguma água.
Voltou
Sentou
Buscou o celular
Ensaiou uma mensagem
Respirou fundo
Apertou "Enviar" e se jogou na cama novamente. Ficou fantasiando  com ela sorrindo ao receber seu "Bom dia! Tem planos para hoje?". Não conseguiu segurar o próprio sorriso ao imaginá-la sorrindo
- Droga! - Isso definitivamente era um sinal

Lagrimas de Pérola



Oh Pérola, coitada
que tuas lagrimas prateadas
rolavam lindas, desenfreadas pela alva face

Oh Pérola, descuidada
sozinha entre as arvores, escura
com olhos suplicando por uma cura, um alivio, um disfarce

Oh Pérola, mal amparada
se abraçando e tremendo hesitante
procurando nos lados, a todo instante por uma lembrança que a abrace

Oh Pérola, desabrigada
o eterno gosto de sangue na boca
pois nada passa pela garganta rouca, nem um sussurro que a desafogasse

Oh Pérola, desesperada
a espera te remoendo de forma cortante
mas permanecia ali, frágil mas constante,como se não houvesse nada que a ameace

Oh Pérola, bemventurada
por esperar por palavras ásperas de cabeça erguida
não importa o quanto se sentia ferida, ficava para resolver o que mais a machucasse

Pérola querida, toma o exemplo do teu nome, como o grão de areia que entrou na ostra, e por tempos inimagináveis a torturou, com o tempo se cicatrizou com mais e mais camadas da mais dor formou uma inimaginavelmente bela pérola


(e, prateada, escura e hesitante/saiu da boca rouca e cortante... um choro ferido de amor)

Canela em pó



Não sei se dramatizei demais as coisas, mas mesmo assim posso dizer que entendi. Uma hora você tem que partir.
Não Sei onde eu estava com minha cabeça tão aérea, quando pensei mesmo por um lapso de vontade febril, prender-te com paredes de expectativas infantis. Logo você, que por ser de definição tão difícil, impossível descrever sem abusar de sinestesias e por isso me chamou a atenção na hora em que te conheci.
Porque te conhecer me tomou por completo, de forma subida fiquei desperto, enquanto sua presença me preenchia, tato, paladar, visão e olfato.
Como gosto de canela, quente,  ardido, florido e envolvente
Que enrola, belisca, arranha, petisca, de sabor onipresente
E mesmo que não dance, tem samba n'alma, daqueles que Tom e Vinícius tanto cantavam. Mas também tem jazz, tango, rock, MPB , e tudo que é musical.
Por que você é assim, de rima complicada mas musica fácil, como o cantarolar de um domingo de manha, enquanto eu levo o café na cama e a luz preguiçosa do sol, que entra pelas venezianas meio fechadas, e me convence a não sair mais do quarto.
E por isso desejei também, meio sem querer, que você nunca mais saísse. A dor no peito de ouvir seus passos passando palpitantes pela porta hipotética.  Ainda mais por saber no fundo que o mundo é grande, cheio de indas e vindas. Sei que não vai demorar muito para você reconhecer seus brilhos, encantos e muito menos para que o mundo te perceba e no meio de tantas luzes cegantes, se perca de mim, nunca mais entrando por essa sala.

suspiro



É isso. Hoje decreto meu completo cansaço. Cansado da rotina, do trabalho, de tudo que não seja você.
Cansei de esperar mais um de incontáveis dias até saciar essa sede. Cansei de respirar o ar puro ou a fumaça de cigarros anônimos pela cidade, sendo que tudo que eu quero inalar é você, o ar da sua presença, aquela sua aura, aquele seu perfume.
 Cansei de explicar o que e de bradar por que. cansei das faces pensativas assentindo lentamente como a saudade é cruel. cansei de todos pois nenhum é você (e ainda bem que não são)
Cansei dos olhares significativos para a lua, dos sorrisos irrefreáveis ao lembrar nossas conversas, das musicas de amor, tão tristes e tão lentas, das noites contemplativas, dos suspiros
Cansei de ficar aqui, inerte e de olho marejando, como quem espera ao lado do palco a deixa para entrar em cena. Ficar aqui cansado de não poder resolver, de não poder cortar essa distancia toda, fantasiosa até, que nos separa, que nos rasga e que nos apaga.
 Mas acima de tudo, estou cansado; o que mais quero é que o dia acabe na ponta de um bom cigarro e que outros dias mais se acabem até o dia do nosso reencontro.

Poesia sem nome



Nunca escrevi para ti, mas nao foi por mal
cada letra por mim arquitetada teve você no fundo
no papel imuno, cheio e sujo de grafite
testemunham que na poesia, de mim voce esteve sempre junto
e ainda mais, nas minhas manhas lá estava voce
e nas lembranças avulsas, na calmaria
e nas minhas orações no terminar do dia

mas mesmo assim, nada te enderecei
em prosa e em poesia, ambas teu nome desconhece
e minha escrita, assim, padece
sofre e chora a falta da declaraçao que merece
nao por ti hesito, mas a mim desafio
nao acredito nem confio
em minha capacidade de te dizer
na capacidade das palavras de expressar
na capacidade da folha branca de comportar
na capacidade da poesia de ser
tão precioso, tão vivo, tão passado, tão futuro
tão puro
que queima as outras palavras imperfeitas para descrever
como deve ser minha poesia para você